World Piano nº 1 – Mozart Bossa Nova

O Young Chang do Café Landtmann

Read the post in English below

Buscar pianos por ai é tarefa difícil. Achar violão, reco reco, pandeiro é mais fácil. Tão bonito quanto, mas dá pra carregar e levar embora. Brasil tem música de levar no colo, que nem criança. O piano é grande e pesado, fica lá te esperando e você tem que ir até ele. É um senhor, daqueles com relógio de bolso que precisamos dar corda.

Vienna é, ao contrario daqui, o país do piano. Mozart, Schubert, Haydn, Schoenberg, Mahler, Webern só pra começar a lista, que é imensa. Ela é comprida porque existe uma tradição, a cultura do lugar cultiva a sua praxis. Aqui no Brasil, por mais que existam pianistas excelentes (sim temos muitos!), somos conhecidos por outra lista: Baden Powell, Dilermano Reis, Dino 7 Cordas, Garoto, João Gilberto, Egberto Gismonti, Hélio Delmiro, Raphael Rabello, Yamandú Costa. Outra lista imensa, mas do instrumento que se leva no colo.

Estou longe de sustentar um ciúme, ou querer criar uma rixa boba entre piano e violão, mas quero provar o ponto de que se colhe o que se planta. A semente violonística brasileira parece vingar mais rápido. Portanto, acho válido começar esta sessão de pianos e suas cidades com uma em que a semente mais forte é nosso instrumento de estudo. Vienna é mais do que apropriada.

Esta sessão infelizmente não seguirá um cronograma, preciso estar de ferias para faze-los, mas quando possível postarei pianos internacionais.

Vienna é linda como toda cidade que já foi centro de impérios muito antigos e que acumularam muito dinheiro e, portanto, fizeram questão de que a cidade representasse tudo o que havia de melhor daquele povo, daquela cultura. Com muitos monumentos, parques e teatros, ela tem tons de branco da arquitetura e verde dos parques. Estive lá no verão e é interessante observar como a cidade pertence aos moradores, eles a ocupam nos gramados, nos passeios de barco pelo canal do rio Danúbio ou o rio Vienna, nas piscinas públicas, nas bicicletas, nos cafés. Um ponto turístico necessário a todos que estão na cidade é o Ringstrasse. Trata-se de uma avenida circular que foi construida em volta do centro de Vienna, a avenida substituiu uma antiga muralha que protegia a cidade contra invasões. A expansão dos bairros e a dificuldade com o transito até eles, fez com que em 1857, o imperador Franz Joseph I demolisse a muralha e começasse a construção deste anel viário.  Ao longo dos anos outras construções importantes foram acompanhando o curso da avenida, como o Museu de História Natural, o de Arte, a Ópera, o Parlament, o castelo imperial Hofburg. Sigmund Freud tinha o hábito de andar pela avenida todos os dias, olhava os monumentos e parava para um café no Café Landtmann, onde está nosso piano.

Não estamos falando de um lugar comum, o lugar é histórico, uma instituição vienense, foi e é frequentado por notáveis além do próprio Freud, Gustav Mahler, Marlene Dietrich, Hillary Clinton e Sir Paul McCartney. Platéia de peso.

Foi fundado em 1873 por Franz Landtmann, um empresario que veio de uma família simples de trabalhadores industriais. O café foi inaugurado com a pretenção de ser o café mais elegante da cidade. Na época, um teatro estava sendo construido bem na frente do local e o senhor Landtmann sofria com terríveis dores de cabeça até que decidiu vendê-lo. Em 1881, Wilhelm Kerl comprou o café e o dirigiu pelos 45 anos seguintes.

Kerl era muito bem relacionado na cidade, muito sociável e famoso pelo seu carisma, depois  que cumpria suas incumbências profissionais, ele jogava tarot para seus clientes.

Mas a carta que a história da Aústria tirou do baralho foi a carta sombria da morte e a Primeira Guerra Mundial atingiu a Europa inteira. O país entrou em crise e a comida era escassa, faltava leite e o café teve que cortar itens do cardápio, como o Einspänner, o café com leite, era servido um café diluido com água. Foram excluídos a famosa Sachertorte, uma torta doce típica, e o Melange, que é o cappuccino deles. Para fazer o Kipferl, uma espécie de croissant, as pessoas tinham que levar sua própria porção de farinha fornecida pelo estado e o Landtmann se encarregava de assá-la.  A mulher de Kerl ficou muito doente e o café foi vendido mais uma vez.

Karl Kraus, que assumiu o café em 1916, vinha de família rica, mas não conseguia manter o padrão alto do café. As depredações e saques eram constantes e ele foi convocado para lutar. Foi capturado e virou prisioneiro de Guerra na Sibéria durante 6 anos e meio. Sua mulher, sem saber seu paradeiro, acabou vendendo o café. Quando ele voltou, tudo tinha mudado e o café não era mais dele.

As manifestações em Vienna sempre ocorreram no Ringstrasse, próximo ao Landtmann, onde está o Parlamento Vienense. O pós Guerra foi devastador para toda a Europa, a Aústria entrou em uma grande crise e as pessoas estavam desesperadas. Entre outras coisas, esta falta de perspectiva foi um elemento chave para a Segunda Guerra que ainda viria. A inflação era imensa e Konrad Zauner, o novo dono do Landtman, tentava ao máximo manter as portas do café abertas em 1926, quando o adquiriu.

Zeppelin sobrevoa Rinstrasse, 1931

Como estratégia de negócios, ele atraiu várias celebridades de Vienna: atores, músicos, professores universitários de prestígio, artístas e politicos. O lugar tornou-se badalado e em voga. Foi inaugurado o Golden Book, um livro no qual as notáveis personalidades deixavam seus recados para o Landtmann. Era uma época de muito engajamento politico, mas o café, assim como seu dono, fizeram questão de manter o lugar neutro, onde ambos os lados poderiam ser clientes.

No entanto, o nazismo e a Segunda Guerra fizeram com que esta neutralidade não pudesse ser mais sustentada. Ou você acenava para Hitler, ou a morte era teu destino. Sabendo da influência do café na sociedade da cidade, o Landtmann foi ocupado, e os nazistas assinaram com tinta preta o Golden Book do café.

Vienna foi bombardeada 52 vezes durante neste período, o Schwarzenberg Palace, entre outros prédios, foi completamente destruído. Durante os bombardeios, todos se recolhiam no porão do prédio, e eles improvisaram uma cozinha lá embaixo para tentar continuar a trabalhar. Muitos se abrigavam em seus porões, mas os escombros eram tantos que não se conseguia sair, e eles morriam sufocados. No Landtmann, toda vez que se descia, eles levavam uma arma, caso isso ficassem presos. Assim, eles poderiam acabar com seus sofrimentos rapidamente e se livrar de morrerem lentamente sufocados. Os russos tomaram o café e colocaram uma metralhadora no terraço do prédio, em uma época em que os saques eram constantes.

Em 1955, foi assinado o Austrian State Treaty, negociado pelo chanceler da época Julius Raab e a Aústria se tornou um estado republicano livre finalmente. A festa de celebração deste acordo aconteceu nos salões do Landtmann, que testemunhou de perto a retirada dos nazistas de sua cidade.

Julius Raab tomando seu café.

Outros tempos vieram e em 1975, Herbert Querfeld comprou o café da viúva Zauner, depois que Erwin morreu em um acidente de carro. A família Querfeld vinha do ramo de eletroeletrônicos e gerencia o lugar até hoje. Eles modernizaram o estabelecimento, ampliaram o terraço, fizeram uma sala de conferência e padronizaram a sua gestão de negócios em cafés. A Família é proprietária de mais seis estabelecimentos, os tradicionais Café Mozart, Café Residenz, Café Museum, Hofburg, Park Café e o Landtmann`s Patisserie.

Para restaurar o clima elegante desejado pelo fundador, Querfeld fez questão que no salão principal tivesse….um piano. Inusitado é que, no país do piano, no café mais marcante de Vienna, o piano é Coreano. É um piano de armário preto da marca Young Chang, que fica na cidade Incheon, na Coréia do Sul. A empresa que tem se destacado na area por aglutinar várias outras marcas de instrumentos musicais como a Samick  e a Squier (guitarras) e a Kurzweil (teclados), também produz a linha de pianos Essex para a Steinways & Sons. Ela foi comprada pela gigante Hyundai em 2006 e é a maior fabricante de pianos da Coréia do Sul. O piano está impecável, afinado, é da série platinum da marca e mesmo sendo um piano de armário, no qual o som é mais seco, ele possui um bom sustain. Pode ser também pela posição do piano no grande salão.

Fiz questão de tocar uma música brasileira, mostrar para os “gringos” nossa música de colo, de leveza e sofisticação, de convencimento sedutor que é a Bossa Nova. Toquei Dindi, do Tom.

São tantas referências simbólicas nesta história que fica até difícil terminá-la. A quantidade de informação em um só lugar, que no ano que vem completa 140 anos, consegue narrar a história da cidade de uma maneira muito particular. Fazendo pão, servindo café, recebendo gente, a singeleza das coisas que compõem a cultura de um lugar. Querfeld diz que não se pode gerenciar o Landtmann como um museu, ele precisa estar vivo para os dias de hoje. Uma constante renovação, reconstruída literalmente de muito escombro. Deixar o passado ir, torná-lo tão leve que dá pra levar no colo, como a música de violão no Brasil.

Um beijo até o próximo piano.

Alessa

Vídeo: Adriana Camarinha

Ps 1: Um enorme agradecimento para Adriana Camarinha, Amanda Camarinha, Roman Fussthaler, Barbara Fussthaler e Christian Karli, dos quais sem a gentileza e a ajuda este post não seria possível. Um brinde a vocês!

Ps 2: Visitei a loja dos incríveis pianos da Böesendorfer Pianos, vi e toquei em modelos desesperadores de tão lindos. Inclusive no modelo exclusivo de aniversário ao artista Gustav Klimt.

FOR OUR FRIENDS AROUND THE GLOBE –  ENGLISH 

Searching for pianos is a hard job. To find a guitar, a reco reco or a tambourine is much easier.  As lovely as the piano is, percussion instruments are light and you can carry them around with you. Brazilian popular music is like that.  You can carry it like you would a child.  Pianos however are heavy and big. They are stationary, play hard to get and wait for you. They are the boss and you must go to them.

Austria is the opposite of Brazil. It`s the country of the piano. Mozart, Schubert, Haydn, Schoenberg, Mahler, Webern, Strauss, the list is huge. The tradition, culture and its execution make it a staple talent within this nation. Even though we have brilliant pianists, in Brazil we are known for another kind of list: Baden PowellDilermano ReisDino 7 CordasGarotoJoão GilbertoEgberto GismontiHélio DelmiroRaphael RabelloYamandú Costa, the list goes on and on. All of them bewitched by the wonders of mobile music such as the acoustic guitar. I don`t want to create rivalry between these two instruments, but let’s make it quite clear that you reap what you sow. The seed of the “violão” (acoustic guitar)  seams to grow faster over this side of the Atlantic. For this international apendix of my blog to work I need to be abroad obviously,  therefore I can’t offer any cronogramn.

Vienna is as gourgeous and silky as any city ruled by a wealthy empire.  Culture and tradition represent everything this place stood for. The monuments, buildings and theatres all have a velveted white shade that contrasts with the wonderful greeny colour of the spreading grass carpet of the parks. I was there during summer and is very interesting to notice how the viennese people love and enjoy every inch of this city. The public areas are designed with the people in mind. They can enjoy a bicycle ride by the river and top up on the much needed sun that us Brazilians take for granted. The Ringstrasse is a great starting point for sightseeing. It`s a circular avenue built around Vienna`s downtown area. It replaces an old wall that stood there to protect the city against invasions. With the expansion of the capital there was great difficulty to move between areas and Emperor Franz Joseph I removed the wall and the Ringstrasse was born. Many important establishments were built around the avenue, the Museum of Natural History, the Museum of Art History, the Opera, the Parliament and the Hofburg Palace are amongst these buildings. Sigmund Freud used to have his morning walk along the Ringstrasse ending it at the Café Landtmann, where our piano is.

This isn’t your regular cafe, the place is a viennese institution. The famous clientele extends from Freud, as I`ve already mentioned to Gustav Mahler, Marlene Dietrich, and more recently Hillary Clinton and Sir Paul McCartney.

The cafe was founded in 1873 by Franz Landtmann, a businessman from a very simple industrial background. It was to be the most elegant cafe house in Vienna accounding to its owner. However, it was sold in 1881 to Wilhelm Kerl due to the noisy construction of the theatre across the street disturbing Mr. Landtmann’s well being.

Kerl ran the establishment for the following 45 years. He was a very influential figure in town, sociable and famous for his charisma. At the end of his day`s work, he used to play tarot cards with his customers.

But things were about to change and the card that austrian history pulled out of the deck was indeed a dark one. First World War broke and the country was in deep crisis. Food was scarce, no milk meant that some famous drinks and dishes such as Einspänner, the Sachertorte and the Melange had to be pulled out of the menu. To prepare and serve dishes such as the Kipferl, a type of croissant, customers had to bring their own flour rations distribuited by the government. Saccharin sweetened the nation due to the lack of sugar and after Kerl’s wife passed away the Landtmann Cafe was sold once again.

In 1916 Karl Kraus was the new rich owner that had trouble keeping up with the high standards clients were used to. Looting was everywhere and the cafe had fallen victim of a crumbling society . Mr. Kraus was captured and imprisoned in Siberia for six and a half years after being ordered to fight in the war. His wife being unaware of his situation, sold the cafe as she could no longer run it. Uppon returning to Vienna Mr. Kraus discovered he no longer owned his beloved Landtmann.

Europe was devastated when the war ended. The people of Austria were in desperate need and the lack of hope amongst other things contribuited to what was still to come, the Second World War.

Even though inflation was at an all time high, the new owner, Konrad Zauner, managed to keep the doors of the cafe opened due to a savy advertisement plan. He hosted famous politicians, artists, musicians, actors and scholars who would sign a book later named the Golden Book. During political rivalry, the cafe managed to remain neutral gathering a wide range of customers. This only lasted until the Nazi occupation. Aware of the reputation of the cafe they imposed onto society as frequent customers by signing the famous golden book of the Landtmann with black ink.

Vienna was bombed 52 times during the second world war and many majestic buildings were totally destroyed including The Schwarzenberg Palace. During the bombings the kitchen of the cafe had to work underground to keep the business stocked up.

In 1955, the Cafe Landtmann hosted the celebration of an historical event. The State Treaty was signed by the chancellor of the time Julius Raab making Austria a free republican state at last.

In 1975, Hebert Querfeld, a business man from the electronical sector bought the cafe and his family still own the establishment . They expanded the porch area, created a conference room and modernized the look of the Landtmann brand. The family developed a unique catering management system and now own 6 other cafes in the city: Cafe Mozart, Cafe Residenz, Cafe Museum, Hofburg Park Cafe and Landtmann`s Patisserie.

Querfeld restored the elegant mood of the cafe by housing a piano inside the main salon. In the country of the piano against all the odds a Korean brand “Young Chang” has managed to squeeze its way though the cafe’s walls. It’s an upright model and as black as a beautiful asian head of hair. They are made in the city of Incheon in South Korea. The company is known for increasing it`s own range of musical instruments by purchasing other brands like Samick, Squier (electric guitars), and Kurzweil (keyboards). They also produce the Essex line of pianos for Steinway & Sons. In 2006, Young Chang was bought by the giant Hyundai and is the biggest piano manufacturer in Korea.

The piano sounds great, it`s from the platinum series from Young Chang. It`s tuned and for an upright model, which sometimes can sound a little bit dry has very good sustain.

I insisted in playing a Brazilian song, something as light as a tropical summer breeze. Our sophistication and seduction translated into music is Bossa Nova and Tom Jobim’s “Dindi” was the chosen treat amongst so many.

There were various symbolic references on this journey that I find it hard to end it. The amount of historical information within this cafe is not only great but unique to the viennese people. It shows us Vienna though very different eyes. 140 years of a kind of wisdom that only Europe can provide. If it`s baking bread, serving coffee, receiving tourists or producing one of the most amazing musical talents of history, it’s the simple way of life that really matters in the end. It`s tenderly sculpting a nation’s culture and the people who are caressed by the tradition that envelops them. Querfeld once said that you can`t run a cafe like a museum, it needs to be alive for the present moment. 

It`s been in constant renovation, literally rebuilt from scratch. Vienna tells me that even though there were difficulties, the burden that once had been so heavy must be made lighter in order to be travelled with, just like the precious instruments of the bewitching mobile music. But let’s not forget that staying put is sometimes nice too, just like the piano, waiting to be played.

Kisses, see you at the next piano.

Alessa

Video: Adriana Camarinha

Ps1: I would like to send my most kind regards to Adriana Camarinha, Amanda Camarinha, Roman Fussthaler, Barbara Fussthaler and Christian Karli, without you this could not be possible! A toast to you guys!

Ps2: While my stay in Vienna I manage to visit Böesendorfer Pianos store, I saw and played in some amazing instruments, including an exclusive model made specially for Gustav Klimt`s, autrian painter, 150th anniversary. 

7 respostas em “World Piano nº 1 – Mozart Bossa Nova

  1. Alessa não sei nem o que falar !!! Ficou lindo o seu 1° trabalho internacional.
    É muito gostoso ler seu blog, principalmente, pelo jeito que você tem em relatar os fatos históricos e suas experiências vividas nessa tonica. O vídeo ficou wanderfull!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! bjs

  2. Alessa, tão gostoso quanto escutar você tocar e cantar, é ler os seus textos.
    Fiquei curioso, foi fácil conseguir tocar lá, eles foram simpáticos ao seu projeto?

  3. Linda….linda…linda….ver uma profissional dessa altura…..parabéns !!!
    E que todos vejam e valorizem uma profissional talentosa q esta mostrando para as pessoas os pianos do mundo!! que tem muita gente q não conheçe ou não curte por não ter ouvido o som suave dessa dupla ….Alessa e seus Pianos….bjus linda!!!

  4. Pingback: Piano nº 14 – Piano Preto, você é feito de aço. | Alessa, a Cidade e os Pianos

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s