Piano Tão Seu – com Henrique Portugal (Skank)

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Eu sei, ando super sumida daqui! Mas não os esqueci, e muito menos nossos pianos queridos. É só a vida que anda meio maluca comigo. De qualquer forma, estamos planejando uma reformulação para nossos posts, então tem novidade vindo por ai!

Enquanto isso, postarei um episódio atípico, mas incrível que aconteceu há um tempinho atrás e revelo agora para inaugurar a nova fase em grande estilo.

Em caráter mais do que extraordinário teremos hoje a participação do querido Henrique Portugal, tecladista do Skank!!!  O encontro se deu por intermédio da agência Ampfy, antenada nas redes sociais. Henrique além de fã do blog, nos contou como achou o piano dele. Quem já comprou um piano, ou está em processo de compra, sabe o quanto ele pode ser demorado. São muitas visitas a casas de afinadores e restauradores para achar a tampa da sua panela musical. E quando você bate o olho no cara, como mágica, o piano parece ter esperado por você a vida toda.

Dentre os incontáveis hits do Skank, escolhemos uma das minhas preferidas “Tão Seu”, mas em um arranjo novo que o Henrique, que tocou teclado, sugeriu. O resultado ficou muito legal e a música ficou com outra cara. Conversamos sobre todos os temas que envolviam o mundo das teclas, e descobri que ele, como eu, também é fã absoluto do Stevie Wonder…já dei uma dica da outra música que tocamos, que eu vou postar mais pra frente hein…

A história do piano do Henrique comprova uma das teorias do blog que cada piano leva consigo todos os seus donos anteriores. Quem toca e tem carinho pelo seu instrumento sabe disso.

Pra mim, que estou começando nessa vida artística, é uma honra tocar com o Henrique, além de sua super carreira, teve a simpatia e a generosidade de compartilhar comigo histórias de pianos e música. Henrique, meu muito obrigada!

Um beijo, até o próximo piano !

Ps: Um beijo imenso para o Gabriel Borges e a galera da Ampfy que tornou esse encontro possível. E outro para a Oca Casa de Som, Conrado Goys e Rodrigo Funai, um abraço!

Ps2: Bloguinho é materia da revista da Livraria Cultura este mês! Corre lá pra ver!

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World Piano nº2 – Escrito com lápis de olho.

O Werner e o dragão.

O Werner e o dragão.

 

(for english keep scrolling)

Estive na Eslovênia em julho de 2012 e fiquei encantada com esse país que fica escondido entre Itália, Áustria, Hungria e Croácia. Um destino pouco comum para brasileiros em visita à Europa, mas que vale a pena por seu charme, suas belezas naturais e hospitalidade.

Mapa da Eslovênia

Mapa da Eslovênia

A história musical do país já vem de longa data, lá foi achado o instrumento musical mais antigo conhecido no mundo, uma flauta, descoberta na caverna Divje Babe que data da era glacial quando os Neandertais moravam na região. Da flauta primitiva até nosso piano, muitos anos de evolução em fabricação de instrumentos. É interessante observar como as civilizações primitivas construíam suas flautas, seus tambores, instrumentos rústicos que faziam parte do dia a dia e expressavam os sentimentos e conflitos do homem daquela época, e o quanto isso foi mudando ao longo do tempo. Mesmo com séculos de distancia, sua função não mudou e continuamos a inventar instrumentos, com a mesma função, a de traduzir nossos anseios no mundo atual, com seus recursos e limitações. Será que daqui a mil anos, olharemos para os pianos, sintetizadores, computadores e acharemos todos precários e limitados? Provavelmente sim. O tempo e sua seleção natural, sua capacidade de reciclar o velho.

Houve uma época em que o piano não era o leão soberano dos instrumentos, antes havia o cravo; e antes do cravo os instrumentos de teclado praticamente não existiam e a menina dos olhos era o violino. Antes disso, a lira e a flauta, e no começo de tudo, a voz. Cantamos a saudade de casa, o amor, o medo, a guerra.

O território da Slovenia é marcado por constantes mudanças territoriais e vivenciou todas as transformações da Europa Oriental. Já pertenceu aos impérios Romano, Bizantino, República de Veneza, Ducado da Carantania, Sacro império Romano-Germânico, Monarquia de Habsburgo, Império Austríaco, Austro-Hungaro, Reino dos Sérvios, Croatas e Esloveno, depois Reino da Yugoslávia, República Socialista Federativa da Yugoslavia até sua independência em 1991!! Hoje, faz parte da zona do euro e o país todo tem quase 2 milhões de habitantes! Não vou nem mencionar quantas pessoas existem só em São Paulo.

A capital da Slovênia é a cidade de Ljubljana (pronúnciamos: Lubliana), a cidade não é muito grande, mas é imensa em carisma. Anda-se a pé por todos os cantos, o prédio da Opera Nacional é muito bonito e vale a pena a caminhada ao longo do rio que corta a cidade, as pontes do Dragão e a  Butcher’s Bridge, que nos leva ao mercado central, na qual casais apaixonados fecham cadeados no arame da ponte, fazem juras de amor e jogam a chave fora… A cidade tem muito verde – alias o país é inscrivelmente bonito com paisagens arrebatadoras, como o lago de Bled e o pico Smarna Gora.

vista do lago Bled

vista do lago Bled

Nosso piano fica em um café/restaurante descolado chamado Gostilnica XXI na rua Rimska, 21. O lugar possui mesas na calçada e uma parte interna para os dias de frio. O restaurante não é muito grande e o piano fica logo na entrada, próximo ao balcão. Artistas locais de folk e outros gêneros tocam frequentemente, e a banda se espreme na sala junto aos convidados. O piano é da marcar Werner preto de ¼ de cauda e estava afinado, seu teclado é leve e a tampa fica fechada pois o restaurante o usa como mesa para guardar alguns copos, talheres e coisas gerais de restaurante. Nas minhas pesquisas sobre a marca, me deparei com 4 fabricantes de piano com o mesmo nome, parece que Werner é um nome popular nos paises de origem germânica. A fábrica mais antiga é de 1810 e fica em Dresden, na Alemanha, e era comandada por Paul Werner. Outra possibilidade é que o piano seja de Berlim, fabricado pelo renomado construtor de piano Ed Werner, que fundou sua fábrica em 1881. Há também a fábrica Werner F.W., de 1845, na cidade de Döbeln também na Alemanha. Por último, existe uma Werner Piano Co 1902, em Chicago, nos Estados Unidos. O dono do restaurante não estava no momento em que o post foi gravado, tentei contacta-lo, mas até agora não obtive resposta. Se um dia conseguir desvendar o mistério, conto para vocês. Mas por dedução, acredito que de Berlim ou Chicago o piano não veio, pois os logos das marcas não condizem com o logo impresso no corpo do piano, o que nos deixa com Werner F.W. e Paul Werner. Façam suas apostas!

festa no Gostilnica XXI

festa no Gostilnica XXI

Toquei um arranjo da canção Por Causa de Você, de 1957, de Tom Jobim com letra da Dolores Duran. É um samba-canção precursor da bossa nova e tem uma história ótima. Tom estava trabalhando na música com Vinícius de Moraes quando foi fazer uma visita à Rádio Nacional, a emissora mais importante do país na época. Lá encontrou Dolores em um quarto de ensaio, ao mostrar a canção, Dolores não teve dúvida, pegou o lápis de olho e escreveu a letra de Por Causa de Você. Sabendo que a outra letra já estava sendo elaborada pelo poeta, a cantora mandou um recadinho: “Vinícius, outra letra é covardia”.  E Vinícius gentilmente cedeu sua vez como letrista para Dolores. Este relato está registrado, pelo próprio Tom, no disco Antônio Carlos Jobim em Minas, ao Vivo, álbum obrigatório para qualquer amante de piano e voz.

Outras versões famosas da canção são de Elizeth Cardoso, em 1958, e Maysa, em 1964. Foi regravada em francês por Silvia Telles, chamada “Gardez moi pour Toujour” (tradução: “Guarde-me para sempre”) e ninguém mais do que Frank Sinatra gravou uma versão em inglês, de Ray Gilbert, chamada “Don`t Ever go Again” (tradução:  “Nunca se vá”), em 1971, no disco Sinatra & Company.

Pianos, canções, lápis de olho, vários Werners, dragões e um país tão simpático que quase se apropria de uma palavra: saudades.

Um beijo, até o próximo piano!

Alessa

Video: Adriana Camarinha

Ps: Um agradecimento especial a Nina Ogrinc e Luka Mladenovic por serem tão amáveis e agenciarem este post para mim. Para todos do Gostilnica XXI pela gentileza.

For our friends of english speaking language!

World Piano n­º2 – The eyeliner statement.

 In July of 2012, I was presently enchanted with a remarkable country that hides in between Italy, Austria, Hungary and Croatia. The country in question is Slovenia, not a common touristic destination amongst Brazilians visiting Europe, but I can assure you that the visit is worth it not only for the country`s natural beauty, but also its hospitality and charm.

Music is no stranger to Slovenian history. It was there that the oldest instrument in the world was found, at the cave Divje Babe, a flute was discovered from the glacial Neanderthal era. Many years of musical craftsmanship evolution were necessary to go from primitive flute to our piano. When you observe older civilizations and their ways of constructing instruments such as flutes and drums, you find that these were part of their everyday life helping them to express and communicate during that time. Only then you realize how much things have changed and even though centuries have passed the primary function of instruments remains. We still invent new ways of making music to express ourselves. I wonder if in a thousand years we will look back to pianos, synthesizers and computers in the same way we now see tapes and vinyl records. Probably yes, it`s part of the natural selection where things eventually get recycled. 

There was a time when the piano wasn’t the almighty instrument it is now. The father of the piano was the harpsichord, before that we had the lyre, the flute and at the very beginning of everything musical, the voice. Love, fear, war, and hope were all themes for all kinds of music.

Slovenia has witnessed all of the transformations in Oriental Europe. It once belonged to The Romans, The Byzantine, The Venetian Republic, The Duchy of Carantania, The Holy Roman Empire, The Habsburg Monarchy, The Austrian Empire, The Austro-Hungarian Empire, The Serbian Kingdom, Croatia, The Yugoslavian Kingdom, The Federal Socialist Republic of Yugoslavia, and finally reaching its independency in 1991! Today, Slovenia is part of The Euro zone, and the country has nearly 2 million inhabitants. It seems so small in comparison to the enormity of São Paulo city alone.

The capital of Slovenia is Ljubljana, a small but nonetheless charming city. You can walk around everywhere, from the National Opera Theatre to the Dragon and Butcher`s bridges, making your way into the central market or just strolling along the river.  The Butcher`s bridge was incredibly interesting, as it is covered in padlocks left there by lovers from around the world who throw away the keys in the hope that their love will last forever.

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Slovenians are very much in touch with nature. The scenery is breathtaking, from Lake Bled to the Smarna Gora Summit. 

Our piano is at a restaurant/café called Gostilnica XXI at  21 Rimska street.

Dragon Bridge

Dragon Bridge

It`s not a large restaurant, but it has a wonderful display of street tables for those much appreciated summer nights. The piano is located at the entrance, near the bar where local folk artists and other musical genres frequently play at the tight designated area. The piano was well tuned and had a Werner branding badge on. The keys were soft and the lid usually stays closed as the restaurant doubles the rest of the instrument’s body as a table to keep some glasses, cups and general cutlery. After an extensive research, four different piano factories with the name Werner were found. It seems to be a popular name for companies of German origin. The oldest factory is in Dresden from 1810, commanded by Paul Werner. Another possibility is that our piano came from Berlin, made by Ed Werner, a renowned piano master from 1881. There is also a Werner F.W. factory from 1845, in Döbeln, also in Germany. Last, but not least there is the Werner Piano Company of Chicago USA, founded in 1902. The owner of the restaurant wasn`t present on the day thus the mystery of this beautiful baby grand piano goes unsolved. If I ever find out its true origin I`ll make sure to post here. My sixth sense tells me that Berlin and Chicago are off the list of possible choices, as the branding is very different from the badge present on the instrument. So Werner F.W. and Paul Werner remains, place your bets!

“Por causa de Você” by Tom Jobim with lyrics by Dolores Duran of 1957 was the song of choice. It’s a “Samba-Canção”, a descendant genre of “Bossa Nova” and this particular song has a great story. Before fame, Tom Jobim was composing the song alongside famous Brazilian poet, Vinícius de Moraes, and while on a visit to the National Radio(the most important radio in Brazil at the time), they bumped into Dolores Duran(one of Brazil’s greatest singers at the time) while she rehearsed at the radio station, he showed her the song. Without hesitation, Dolores grabbed her eyeliner and started to write the lyrics for “Por Causa de Você”. Knowing that another lyrics was being written by the famous poet, she cheekily wrote a note to him: “Another lyrics is cowardice”. The note won the battle for Dolores as lyricist and this episode is registered on the record  Antônio Carlos Jobim, live at Minas Gerais,a must have album for anyone who is into piano and voice.

There are many famous versions of this song including singers Elizeth Cardoso (1958), Maysa (1964) the French version by Silvia Telles  “Gardez moi pour Toujour”, and the unforgetable Frank Sinatra`s english version “Don`t Ever Go Again”, lyrics by Ray Gilbert, of 1971, in Sinatra & Company album.

Pianos, songs, eyeliners, several Werners, dragons and a fairy tale country all mashed up together in a once in a life time trip.

Kisses xx

See you at the next piano!

 Alessa 

Video: Adriana Camarinha

Ps: A super special thanks to Nina Ogrinc and Luka Mladenovic for not only being the best hosts, but also booking the piano for me. To all at Gostilnica XXI, I wish you guys the best, and thank you for your kindness.

Piano nº 14 – Piano Preto, você é feito de aço.

o Yamaha diskclavier preto de 3/4 de cauda da Lexus

São Paulo é dos carros, do trânsito, da mobilidade, do acesso contínuo. Estes parâmetros parecem distantes do mundo das teclas. O piano é lento, demora-se pra transportar, atrapalha o trânsito, não tem mobilidade nenhuma e é uma instrumento que requer tempo e dedicação para se aprender. Quem tem tempo hoje em dia!?

Mas o piano é elegância por definição e isso agrada o paulistano. Ele é estressado, mas não sai do salto. Há um tempo, São Paulo se transformou em roteiro para o mercado de luxo, o dinheiro aqui corre pela Berrini e estaciona na Av. Nações Unidas nº17.271, a primeira concessionária da Lexus no Brasil. Lá está nosso piano, um Yamaha preto, disklavier DGB1KE3.

Os disklaviers foram introduzidos pela marca em 1986, são pianos acústicos, mas com uma interface digital que possibilita gravar a música tocada e reproduzi-la sem que você precise toca-la novamente. Quando chegamos no salão amplo da concessionária, o piano estava tocando sozinho, um tanto inusitado. Muitos podem achar que a existência do próprio piano na loja de carros ainda mais estranho, mas pianos e carros podem ser um grande negócio.

A Lexus é a marca de luxo da multinacional japonesa Toyota, seu modelo em exposição, o LF-A, custa 2 milhões de reais. Mais do que exclusivo, só foram fabricados 500 unidades, que hoje estão espalhadas pelo mundo. O modelo estava em exibição neste último salão do automóvel no Anhembi para deleite dos apaixonados por carro. Para atrair os clientes de luxo, a concessionária construiu sua loja pensando em uma galeria de arte, pé direito alto, café gourmet, champagne e obviamente, um piano de cauda.

A estadia do piano na Lexus se deve a uma parceria com a empresa de instrumentos Yamaha, que fornece o instrumento na esperança de que um comprador de carro mais animado inclua o piano no negócio. Já entraram no pacote e mandaram embrulhar 3 pianos na concessionária.

O dinheiro se confunde entre engrenagens e teclas. A Yamaha, também originária do Japão, está no Brasil desde 1973. Ela foi fundada em 1887, quando fabricou seu primeiro órgão feito de bambu, e hoje  a marca completa 125 anos de história e é a maior produtora de pianos do mundo – desde 1900, ela vendeu 6,15 milhões de pianos. Após a Segunda Guerra Mundial, o presidente da fábrica, Tomiko Ganichi Kawakami, aproveitou sua experiência em metalurgia e começou a fabricar motocicletas. Os motoqueiros que circulam com suas motos pelas avenidas da cidade aposto que não repararam que o logo de suas Yamahas são três diapasões, aqueles garfinhos de afinação, entrelaçados.

Em 2007, a marca comprou uma parte minoritária da marca de pianos inglesa, Kemble (já comentada no post nº 7) e adquiriu ações da icônica marca austríaca Bösendorfer (vide post World Pianos nº 1), ganhando a disputa da americana Gibson que também estava de olho no negócio. Para que a transação fosse aceita, a Bösendorfer exigiu que sua fábrica se mantivesse na Áustria, piano lá é identidade nacional.

O negócio entre pianos e carros não é uma exclusividade japonesa. A Bösendorfer por sua vez, em 2009 anunciou uma parceria com alemã Audi para celebrar o centenário da marca de carros. Foram confeccionados, sob encomenda, pianos bösendorfer com design Audi. O desenho da tampa do piano é arrojado e se assemelha as portas de carro. Os pés do piano, assim como o pedal e o banco, feitos de metal cromado. A parte de madeira que acomoda o teclado, ficou mais fina para dar mais espaço às pernas do pianista. O presidente do grupo Audi em entrevista na época comentou que as dificuldades para a criação do desenho final estimularam a criatividade da equipe, eles tiveram que estudar o instrumento a fundo e que o projeto foi uma ferramenta muito importante que beneficiará os designers no futuro, na própria criação de carros. Carros-pianos?!?!?! Seria bom, com o trânsito de São Paulo, dá pra virar Mozart!

piano Bösendorfer com design da Audi.

   

Na Rússia, a seguradora de carros In Touch criou a campanha Car vs. Piano. Com a idéia de que acidentes com carro podem acontecer em qualquer lugar, a empresa colocou um piano de 350 kg preso por 9 cabos de aço, em cima de um carro em um estacionamento. A campanha/instalação era filmada 24h horas e todos podiam acompanhar o destino do carro via twitter/facebook. Os cabos eram cortados por eventos aleatórios do tipo: se o time de futebol Barcelona ganhar, corta-se um cabo…tudo visto e comentádo na web. O hashtag #carvspiano em um ponto ficou como o segundo maior trending topic do país e o números de visitas ultrapassou em 200% o esperado pela agência. A campanha foi sucesso mundial.

Diante deste cenário tão inusitado de carro, piano e cidade, achei muito apropriado tocar algo que fizesse sentido. Escolhi o clássico sertanejo de Atílio Versutti e Jeca Mineiro, Fuscão Preto! A letra é tão absurda e dramática que adaptei a canção para um arranjo bolero/jazz. Não é sempre que encontramos os versos “Fuscão Preto/ você é feito de aço / fez meu amor em pedaço / também aprendeu matar”.

O piano não está com a afinação completamente correta, as grandes janelas de vidro e o sol que bate na concessionária com certeza foram responsáveis pela instabilidade das notas, mas o piano tem uma ressonância boa, o salão amplo cria um reverb natural interessante.

Fuscão Preto virou sucesso nacional na voz de Almir Rogério em 1982 e foi baseado numa história verídica de traição, segundo o próprio Almir em entrevista para o site da casa noturna Trash 80`s. Um amigo pintor de Jeca Mineiro e Atílio viu a esposa de um conhecido chegar em um fuscão preto altamente suspeito. A canção foi regravada em italiano ganhando o nome de “Fiat Negro” e em inglês, “Black Mustang”.

Um ano depois, aproveitando a popularidade da canção, Jeremias Moreira Filho dirigiu um filme com o mesmo nome, baseado na letra da música, com o cantor e a então no começo de carreira, eterna rainha dos baixinhos, Xuxa Meneghel. O filme é um clássico trash do cinema brasileiro e conta a história de Diana (Xuxa Meneghel), filha de um fazendeiro, que se envolve em um triângulo amoroso. Ela, de casamento marcado com Marcelo (Dênis Derkian), filho do prefeito da cidade, se apaixona por Lima (Almir Rogério), um cowboy forasteiro. O prefeito tenta persuadir o fazendeiro Lucena (Dionísio Azevedo), pai de Diana, a substituir sua criação de cavalos por uma plantação de cana de açucar. No meio disso tudo, aparece o Fuscão Preto, uma espécie de “Herbie, se meu Fusca Falasse” misturado com Darth Vader e atrapalha os planos de todos, roubando o coração de Diana. Mesmo com o enredo absurdo, o filme discute discretamente a substituição do Brasil rural pelo urbano, do cavalo pelo carro e o “progresso” brasileiro industrial da década de 80. Com cenas impagáveis, Fuscão Preto se tornou um ícone do brega nacional.

cartaz do filme

Xuxa estrela Fuscão Preto

Carros importados, multinacionais japonesas, seguradoras de veículos, fuscas, Xuxa, música sertaneja, filmes bregas nacionais, substituição do rural pelo urbano, trânsito, mais carros e por fim um piano. Ufa! Será que é possível costurar tudo isso com corda de piano!? Parece que sim. A cidade continua aberta, à espera de suas interconexões, dentro do piano cabe tudo até um fusca.

Um beijo até o próximo piano,

Alessa

Vídeo: Agustin N.Oroz.

Ps: Obrigada a todos da Lexus, principalmente ao Mayco Chacon pela gentileza e um beijo grande para Tatiana Petit que achou este piano incrível e me mandou a dica!

Piano nº13 – Piano Bibi

o Yamaha de 3/4 de cauda do Teatro Décio Almeida Prado

Como artista independente na cidade de São Paulo, faz parte da minha rotina diária caçar não apenas pianos, mas lugares para me apresentar. Aliás, o blog surgiu como uma alternativa para esta carência. Não só tenho me apresentado mais desde que ele começou em fevereiro, mas como tenho (re)descoberto espaços possíveis para outros pianistas por ai. Descobri que não sou a única nesta busca, várias pessoas acessam o blog para me contar de suas peregrinações.

O teatro Décio Almeida Prado, onde está nosso piano de hoje, me foi indicado por um amigo, artista independente, o muito querido Márcio Lugó. Ele fez seu cd sozinho, compôs, tocou, gravou, e produz sua carreira, toca o rumo de seu barco como bem quer. Ser artista independente não é fácil, mas é uma forma possível, digna e cada vez mais apoiada nos novos meios de comunicação, como as redes sociais, e, inclusive… um blog.

Quando cheguei ao teatro, que é administrado pela prefeitura, fiquei bem surpresa. O espaço cai como uma luva para artistas independentes. Não é um teatro grande, é o tipo de espaço em que o artista ainda consegue olhar no olho de sua plateia. É muito bem equipado e foi reformado recentemente, endi sido reinaugurado em julho do ano passado. O piano do teatro é um Yamaha de ¾ de cauda, modelo C-5, 335 kg. Ele é lindo! Talvez tenha sido o piano mais preciso que toquei desde que começei minha caçada. Ele foi arrematado em um pregão, em 2007, e ainda tem som de novo. Estava muito bem afinado em minha visita e como é um piano adolescente está louco para mostrar serviço. A resposta do pedal é muito boa e o peso é ideal, nem muito leve, nem muito pesado. Com o tempo e gente tocando mais nele seu som irá abrir, vale a pena acompanhar o som deste piano ao longo dos anos.  A acústica do teatro também favorece: como não se trata de um salão amplo, o reverb fica na medida para sons intimistas, que muito me agradam.

Toquei um jazz que eu gosto muito, chama-se Bewitched, Bothered and Bewildered da dupla Rodgers and Hart. Com uma parceria a lá João Bosco/ Aldir Blanc, misturando melodia bem acabadas e humor, Richard Rodgers, compositor, e Lorenz Hart, letrista, fizeram musicais da broadway dos anos 30 aos 50. São os autores de músicas imortalizadas nas vozes de Ella, Sinatra e Holiday, como Blue Moon, My Funny Valentine, The Lady is a Tramp, Falling in Love with You. Bewitched foi feita para o musical Pal Joey, em 1940, e é tema da personagem Vera Simpson, uma socialite rica e entediada que se apaixona por Joey, um mulherengo que se aproveita do dinheiro da madame para realizar seu sonho, de ter um teatro. Mas o dele é mais um teatro cabaret, com mulheres semi-nuas. A produção de 1940 estreiou com Gene Kelly no papel de Joey e Vivianne Segal como Vera e em 1957 Hollywood fez sua versão com Sinatra e Rita Hayworth.

cartaz da produção de Pal Joey de 1940

Richard Rodgers no piano e Lorenz Hart, letrista, ao lado.

Já o nosso fica no bairro Itaim Bibi, que até 2001 pertencia à zona sul de São Paulo (e hoje em dia é considerado zona oeste). A região era toda alagada e servia para a pesca, a caça e outras atividades recreativas até que, em 1896, ela foi arrematada pelo general José Vieira de Couto Magalhães, que foi presidente do Estado de São Paulo. O general teve um filho com uma índia e a região começou a ser chamada Chácara de Itahy que em tupi significa “pedra pequena”. O filho acabou vendendo a propriedade em 1907 para o tio, o médico Leopoldo Couto Magalhães. Ele era conhecido como o “seu Bibi”, bibi (bebê) era como as escravas que cuidaram dele o chamavam. A rua Renato Paes de Barros antes se chamava Rua Bibi, em sua homenagem. João Cachoeira era um agregado da família que também virou nome de rua. A sede da chácara ficava no início da atual rua Iguatemi e, mesmo tombada pelo patrimônio, ela foi destruída pelos seus atuais proprietários.

Um dos filhos de Bibi, Arnaldo Couto de Magalhães loteou as terras e vendeu os terrenos na década de 20 para pequenos agricultores italianos que plantavam verduras e legumes e já não cabiam mais na Bela Vista ou no Bixiga. Os terrenos mais próximos do rio Pinheiros, foram sendo ocupados por atividades ligadas a olarias e forneciam tijolos e telhas para as construções. Esta área mais industrial acabou levando o nome de Itaim Paulista e as àreas menos alagadas e mais perto da casa grande da chácara foram chamadas Itaim Bibi. Hoje o bairro abriga muitas multinacionais como a Morgan Stanley, Internet Group e a Cyrela. Os restaurantes e bares proliferam a cada dia, mas teatros ainda não são muitos.

O espaço leva o nome do ensaísta, crítico de teatro e professor Décio Almeida Prado. Ele foi um dos mais influentes críticos teatrais em São Paulo nas décadas de 40 até 60. Foi professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP. Foi professor de história do teatro na Escola de Arte Dramática – EAD junto com Cacilda Becker, que hoje dá nome a outro teatro administrado pela prefeitura, nos mesmos moldes do espaço no Itaim Bibi. Com ela, Décio fundou o GUT – Grupo Universitário de Teatro que era ligado à USP. Escreveu sobre o tema na revista Clima de 1941 a 1944 e depois foi responsável pela elaboração de um suplemento literário no jornal O Estado de São Paulo a partir de 1956. Suas pesquisas e artigos tinham como objetivo situar o teatro na cultura do país.

Décio de Almeida Prado na juventude.

Foi responsável pelo amadurecimento da crítica cultural no Brasil – não só apenas o teatro brasileiro estava crescendo e se desenvolvendo, mas o pensamento sobre ele também. O crítico é um especialista em ser platéia, em acompanhar de perto as produções culturais e seus diálogos com outras produções ou com outros aspectos do cotidiano. Para poder criticar é preciso saber traduzir obra e mundo, onde estão estes pontos de intersecção.

Enquanto estive na minha visita ao Décio Almeida Prado, conheci o Daniel Ribeiro, que é responsável pela iluminação do local. A história dele com a prática teatral é antiga. Quando ele tinha 15 anos, ia todos os dias em uma biblioteca em Santo Amaro e via o grupo de teatro que fazia parte da Secretaria de Cultura ensaiar no auditório. Ficava lá “de butuca” até que o diretor o convidou para fazer um teste. Se apresentaram em várias atividades festivas organizadas pela prefeitura. Ele resolveu prestar concurso e passou a fazer parte do quadro de funcionários, e hoje é produtor cultural da Galeria Olido. Mas faz um pouco de tudo, como todo bom artista independente, é iluminador, cenógrafo e ator. Trabalhou com musical, teatro de marionetes, e de mascaras, fez dois filmes, nos quais trabalhou com os atores Paulo Autran e Giulia Gam. Daniel também não é daqui, veio lá de Minas Gerais, com seus 15 irmãos numa kombi velha, jogar a moeda da sorte sobre a capital. Tinha 9 anos de idade.

Todos somos artistas de uma forma ou de outra, alguns resolvem exercer a habilidade outros não. Mas traduzimos e entendemos o mundo desta forma. Os espaços para estas traduções são diversos e inusitados. A tela do computador hoje em dia é também um destes espaços. É aqui, que eu tento, assim como você, desempenhar o meu papel, neste palco, nesta cidade.

Um beijo até o próximo piano.

Alessa

Vídeo: Bruno Teixeira Martins

Ps: Um grande beijo para o Márcio Lugó que me indicou o piano e para a Nathália Gabriel e a equipe do teatro pela gentileza e disponibilidade.

World Piano nº 1 – Mozart Bossa Nova

O Young Chang do Café Landtmann

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Buscar pianos por ai é tarefa difícil. Achar violão, reco reco, pandeiro é mais fácil. Tão bonito quanto, mas dá pra carregar e levar embora. Brasil tem música de levar no colo, que nem criança. O piano é grande e pesado, fica lá te esperando e você tem que ir até ele. É um senhor, daqueles com relógio de bolso que precisamos dar corda.

Vienna é, ao contrario daqui, o país do piano. Mozart, Schubert, Haydn, Schoenberg, Mahler, Webern só pra começar a lista, que é imensa. Ela é comprida porque existe uma tradição, a cultura do lugar cultiva a sua praxis. Aqui no Brasil, por mais que existam pianistas excelentes (sim temos muitos!), somos conhecidos por outra lista: Baden Powell, Dilermano Reis, Dino 7 Cordas, Garoto, João Gilberto, Egberto Gismonti, Hélio Delmiro, Raphael Rabello, Yamandú Costa. Outra lista imensa, mas do instrumento que se leva no colo.

Estou longe de sustentar um ciúme, ou querer criar uma rixa boba entre piano e violão, mas quero provar o ponto de que se colhe o que se planta. A semente violonística brasileira parece vingar mais rápido. Portanto, acho válido começar esta sessão de pianos e suas cidades com uma em que a semente mais forte é nosso instrumento de estudo. Vienna é mais do que apropriada.

Esta sessão infelizmente não seguirá um cronograma, preciso estar de ferias para faze-los, mas quando possível postarei pianos internacionais.

Vienna é linda como toda cidade que já foi centro de impérios muito antigos e que acumularam muito dinheiro e, portanto, fizeram questão de que a cidade representasse tudo o que havia de melhor daquele povo, daquela cultura. Com muitos monumentos, parques e teatros, ela tem tons de branco da arquitetura e verde dos parques. Estive lá no verão e é interessante observar como a cidade pertence aos moradores, eles a ocupam nos gramados, nos passeios de barco pelo canal do rio Danúbio ou o rio Vienna, nas piscinas públicas, nas bicicletas, nos cafés. Um ponto turístico necessário a todos que estão na cidade é o Ringstrasse. Trata-se de uma avenida circular que foi construida em volta do centro de Vienna, a avenida substituiu uma antiga muralha que protegia a cidade contra invasões. A expansão dos bairros e a dificuldade com o transito até eles, fez com que em 1857, o imperador Franz Joseph I demolisse a muralha e começasse a construção deste anel viário.  Ao longo dos anos outras construções importantes foram acompanhando o curso da avenida, como o Museu de História Natural, o de Arte, a Ópera, o Parlament, o castelo imperial Hofburg. Sigmund Freud tinha o hábito de andar pela avenida todos os dias, olhava os monumentos e parava para um café no Café Landtmann, onde está nosso piano.

Não estamos falando de um lugar comum, o lugar é histórico, uma instituição vienense, foi e é frequentado por notáveis além do próprio Freud, Gustav Mahler, Marlene Dietrich, Hillary Clinton e Sir Paul McCartney. Platéia de peso.

Foi fundado em 1873 por Franz Landtmann, um empresario que veio de uma família simples de trabalhadores industriais. O café foi inaugurado com a pretenção de ser o café mais elegante da cidade. Na época, um teatro estava sendo construido bem na frente do local e o senhor Landtmann sofria com terríveis dores de cabeça até que decidiu vendê-lo. Em 1881, Wilhelm Kerl comprou o café e o dirigiu pelos 45 anos seguintes.

Kerl era muito bem relacionado na cidade, muito sociável e famoso pelo seu carisma, depois  que cumpria suas incumbências profissionais, ele jogava tarot para seus clientes.

Mas a carta que a história da Aústria tirou do baralho foi a carta sombria da morte e a Primeira Guerra Mundial atingiu a Europa inteira. O país entrou em crise e a comida era escassa, faltava leite e o café teve que cortar itens do cardápio, como o Einspänner, o café com leite, era servido um café diluido com água. Foram excluídos a famosa Sachertorte, uma torta doce típica, e o Melange, que é o cappuccino deles. Para fazer o Kipferl, uma espécie de croissant, as pessoas tinham que levar sua própria porção de farinha fornecida pelo estado e o Landtmann se encarregava de assá-la.  A mulher de Kerl ficou muito doente e o café foi vendido mais uma vez.

Karl Kraus, que assumiu o café em 1916, vinha de família rica, mas não conseguia manter o padrão alto do café. As depredações e saques eram constantes e ele foi convocado para lutar. Foi capturado e virou prisioneiro de Guerra na Sibéria durante 6 anos e meio. Sua mulher, sem saber seu paradeiro, acabou vendendo o café. Quando ele voltou, tudo tinha mudado e o café não era mais dele.

As manifestações em Vienna sempre ocorreram no Ringstrasse, próximo ao Landtmann, onde está o Parlamento Vienense. O pós Guerra foi devastador para toda a Europa, a Aústria entrou em uma grande crise e as pessoas estavam desesperadas. Entre outras coisas, esta falta de perspectiva foi um elemento chave para a Segunda Guerra que ainda viria. A inflação era imensa e Konrad Zauner, o novo dono do Landtman, tentava ao máximo manter as portas do café abertas em 1926, quando o adquiriu.

Zeppelin sobrevoa Rinstrasse, 1931

Como estratégia de negócios, ele atraiu várias celebridades de Vienna: atores, músicos, professores universitários de prestígio, artístas e politicos. O lugar tornou-se badalado e em voga. Foi inaugurado o Golden Book, um livro no qual as notáveis personalidades deixavam seus recados para o Landtmann. Era uma época de muito engajamento politico, mas o café, assim como seu dono, fizeram questão de manter o lugar neutro, onde ambos os lados poderiam ser clientes.

No entanto, o nazismo e a Segunda Guerra fizeram com que esta neutralidade não pudesse ser mais sustentada. Ou você acenava para Hitler, ou a morte era teu destino. Sabendo da influência do café na sociedade da cidade, o Landtmann foi ocupado, e os nazistas assinaram com tinta preta o Golden Book do café.

Vienna foi bombardeada 52 vezes durante neste período, o Schwarzenberg Palace, entre outros prédios, foi completamente destruído. Durante os bombardeios, todos se recolhiam no porão do prédio, e eles improvisaram uma cozinha lá embaixo para tentar continuar a trabalhar. Muitos se abrigavam em seus porões, mas os escombros eram tantos que não se conseguia sair, e eles morriam sufocados. No Landtmann, toda vez que se descia, eles levavam uma arma, caso isso ficassem presos. Assim, eles poderiam acabar com seus sofrimentos rapidamente e se livrar de morrerem lentamente sufocados. Os russos tomaram o café e colocaram uma metralhadora no terraço do prédio, em uma época em que os saques eram constantes.

Em 1955, foi assinado o Austrian State Treaty, negociado pelo chanceler da época Julius Raab e a Aústria se tornou um estado republicano livre finalmente. A festa de celebração deste acordo aconteceu nos salões do Landtmann, que testemunhou de perto a retirada dos nazistas de sua cidade.

Julius Raab tomando seu café.

Outros tempos vieram e em 1975, Herbert Querfeld comprou o café da viúva Zauner, depois que Erwin morreu em um acidente de carro. A família Querfeld vinha do ramo de eletroeletrônicos e gerencia o lugar até hoje. Eles modernizaram o estabelecimento, ampliaram o terraço, fizeram uma sala de conferência e padronizaram a sua gestão de negócios em cafés. A Família é proprietária de mais seis estabelecimentos, os tradicionais Café Mozart, Café Residenz, Café Museum, Hofburg, Park Café e o Landtmann`s Patisserie.

Para restaurar o clima elegante desejado pelo fundador, Querfeld fez questão que no salão principal tivesse….um piano. Inusitado é que, no país do piano, no café mais marcante de Vienna, o piano é Coreano. É um piano de armário preto da marca Young Chang, que fica na cidade Incheon, na Coréia do Sul. A empresa que tem se destacado na area por aglutinar várias outras marcas de instrumentos musicais como a Samick  e a Squier (guitarras) e a Kurzweil (teclados), também produz a linha de pianos Essex para a Steinways & Sons. Ela foi comprada pela gigante Hyundai em 2006 e é a maior fabricante de pianos da Coréia do Sul. O piano está impecável, afinado, é da série platinum da marca e mesmo sendo um piano de armário, no qual o som é mais seco, ele possui um bom sustain. Pode ser também pela posição do piano no grande salão.

Fiz questão de tocar uma música brasileira, mostrar para os “gringos” nossa música de colo, de leveza e sofisticação, de convencimento sedutor que é a Bossa Nova. Toquei Dindi, do Tom.

São tantas referências simbólicas nesta história que fica até difícil terminá-la. A quantidade de informação em um só lugar, que no ano que vem completa 140 anos, consegue narrar a história da cidade de uma maneira muito particular. Fazendo pão, servindo café, recebendo gente, a singeleza das coisas que compõem a cultura de um lugar. Querfeld diz que não se pode gerenciar o Landtmann como um museu, ele precisa estar vivo para os dias de hoje. Uma constante renovação, reconstruída literalmente de muito escombro. Deixar o passado ir, torná-lo tão leve que dá pra levar no colo, como a música de violão no Brasil.

Um beijo até o próximo piano.

Alessa

Vídeo: Adriana Camarinha

Ps 1: Um enorme agradecimento para Adriana Camarinha, Amanda Camarinha, Roman Fussthaler, Barbara Fussthaler e Christian Karli, dos quais sem a gentileza e a ajuda este post não seria possível. Um brinde a vocês!

Ps 2: Visitei a loja dos incríveis pianos da Böesendorfer Pianos, vi e toquei em modelos desesperadores de tão lindos. Inclusive no modelo exclusivo de aniversário ao artista Gustav Klimt.

FOR OUR FRIENDS AROUND THE GLOBE –  ENGLISH 

Searching for pianos is a hard job. To find a guitar, a reco reco or a tambourine is much easier.  As lovely as the piano is, percussion instruments are light and you can carry them around with you. Brazilian popular music is like that.  You can carry it like you would a child.  Pianos however are heavy and big. They are stationary, play hard to get and wait for you. They are the boss and you must go to them.

Austria is the opposite of Brazil. It`s the country of the piano. Mozart, Schubert, Haydn, Schoenberg, Mahler, Webern, Strauss, the list is huge. The tradition, culture and its execution make it a staple talent within this nation. Even though we have brilliant pianists, in Brazil we are known for another kind of list: Baden PowellDilermano ReisDino 7 CordasGarotoJoão GilbertoEgberto GismontiHélio DelmiroRaphael RabelloYamandú Costa, the list goes on and on. All of them bewitched by the wonders of mobile music such as the acoustic guitar. I don`t want to create rivalry between these two instruments, but let’s make it quite clear that you reap what you sow. The seed of the “violão” (acoustic guitar)  seams to grow faster over this side of the Atlantic. For this international apendix of my blog to work I need to be abroad obviously,  therefore I can’t offer any cronogramn.

Vienna is as gourgeous and silky as any city ruled by a wealthy empire.  Culture and tradition represent everything this place stood for. The monuments, buildings and theatres all have a velveted white shade that contrasts with the wonderful greeny colour of the spreading grass carpet of the parks. I was there during summer and is very interesting to notice how the viennese people love and enjoy every inch of this city. The public areas are designed with the people in mind. They can enjoy a bicycle ride by the river and top up on the much needed sun that us Brazilians take for granted. The Ringstrasse is a great starting point for sightseeing. It`s a circular avenue built around Vienna`s downtown area. It replaces an old wall that stood there to protect the city against invasions. With the expansion of the capital there was great difficulty to move between areas and Emperor Franz Joseph I removed the wall and the Ringstrasse was born. Many important establishments were built around the avenue, the Museum of Natural History, the Museum of Art History, the Opera, the Parliament and the Hofburg Palace are amongst these buildings. Sigmund Freud used to have his morning walk along the Ringstrasse ending it at the Café Landtmann, where our piano is.

This isn’t your regular cafe, the place is a viennese institution. The famous clientele extends from Freud, as I`ve already mentioned to Gustav Mahler, Marlene Dietrich, and more recently Hillary Clinton and Sir Paul McCartney.

The cafe was founded in 1873 by Franz Landtmann, a businessman from a very simple industrial background. It was to be the most elegant cafe house in Vienna accounding to its owner. However, it was sold in 1881 to Wilhelm Kerl due to the noisy construction of the theatre across the street disturbing Mr. Landtmann’s well being.

Kerl ran the establishment for the following 45 years. He was a very influential figure in town, sociable and famous for his charisma. At the end of his day`s work, he used to play tarot cards with his customers.

But things were about to change and the card that austrian history pulled out of the deck was indeed a dark one. First World War broke and the country was in deep crisis. Food was scarce, no milk meant that some famous drinks and dishes such as Einspänner, the Sachertorte and the Melange had to be pulled out of the menu. To prepare and serve dishes such as the Kipferl, a type of croissant, customers had to bring their own flour rations distribuited by the government. Saccharin sweetened the nation due to the lack of sugar and after Kerl’s wife passed away the Landtmann Cafe was sold once again.

In 1916 Karl Kraus was the new rich owner that had trouble keeping up with the high standards clients were used to. Looting was everywhere and the cafe had fallen victim of a crumbling society . Mr. Kraus was captured and imprisoned in Siberia for six and a half years after being ordered to fight in the war. His wife being unaware of his situation, sold the cafe as she could no longer run it. Uppon returning to Vienna Mr. Kraus discovered he no longer owned his beloved Landtmann.

Europe was devastated when the war ended. The people of Austria were in desperate need and the lack of hope amongst other things contribuited to what was still to come, the Second World War.

Even though inflation was at an all time high, the new owner, Konrad Zauner, managed to keep the doors of the cafe opened due to a savy advertisement plan. He hosted famous politicians, artists, musicians, actors and scholars who would sign a book later named the Golden Book. During political rivalry, the cafe managed to remain neutral gathering a wide range of customers. This only lasted until the Nazi occupation. Aware of the reputation of the cafe they imposed onto society as frequent customers by signing the famous golden book of the Landtmann with black ink.

Vienna was bombed 52 times during the second world war and many majestic buildings were totally destroyed including The Schwarzenberg Palace. During the bombings the kitchen of the cafe had to work underground to keep the business stocked up.

In 1955, the Cafe Landtmann hosted the celebration of an historical event. The State Treaty was signed by the chancellor of the time Julius Raab making Austria a free republican state at last.

In 1975, Hebert Querfeld, a business man from the electronical sector bought the cafe and his family still own the establishment . They expanded the porch area, created a conference room and modernized the look of the Landtmann brand. The family developed a unique catering management system and now own 6 other cafes in the city: Cafe Mozart, Cafe Residenz, Cafe Museum, Hofburg Park Cafe and Landtmann`s Patisserie.

Querfeld restored the elegant mood of the cafe by housing a piano inside the main salon. In the country of the piano against all the odds a Korean brand “Young Chang” has managed to squeeze its way though the cafe’s walls. It’s an upright model and as black as a beautiful asian head of hair. They are made in the city of Incheon in South Korea. The company is known for increasing it`s own range of musical instruments by purchasing other brands like Samick, Squier (electric guitars), and Kurzweil (keyboards). They also produce the Essex line of pianos for Steinway & Sons. In 2006, Young Chang was bought by the giant Hyundai and is the biggest piano manufacturer in Korea.

The piano sounds great, it`s from the platinum series from Young Chang. It`s tuned and for an upright model, which sometimes can sound a little bit dry has very good sustain.

I insisted in playing a Brazilian song, something as light as a tropical summer breeze. Our sophistication and seduction translated into music is Bossa Nova and Tom Jobim’s “Dindi” was the chosen treat amongst so many.

There were various symbolic references on this journey that I find it hard to end it. The amount of historical information within this cafe is not only great but unique to the viennese people. It shows us Vienna though very different eyes. 140 years of a kind of wisdom that only Europe can provide. If it`s baking bread, serving coffee, receiving tourists or producing one of the most amazing musical talents of history, it’s the simple way of life that really matters in the end. It`s tenderly sculpting a nation’s culture and the people who are caressed by the tradition that envelops them. Querfeld once said that you can`t run a cafe like a museum, it needs to be alive for the present moment. 

It`s been in constant renovation, literally rebuilt from scratch. Vienna tells me that even though there were difficulties, the burden that once had been so heavy must be made lighter in order to be travelled with, just like the precious instruments of the bewitching mobile music. But let’s not forget that staying put is sometimes nice too, just like the piano, waiting to be played.

Kisses, see you at the next piano.

Alessa

Video: Adriana Camarinha

Ps1: I would like to send my most kind regards to Adriana Camarinha, Amanda Camarinha, Roman Fussthaler, Barbara Fussthaler and Christian Karli, without you this could not be possible! A toast to you guys!

Ps2: While my stay in Vienna I manage to visit Böesendorfer Pianos store, I saw and played in some amazing instruments, including an exclusive model made specially for Gustav Klimt`s, autrian painter, 150th anniversary. 

Piano nº 12 – 피아노 significa piano

Temos 512 anos de Brasil, 458 anos de São Paulo. Eu tenho 29 de vida e 9 aqui nesta cidade. Por mais que o tempo passe, confesso que, saber o que é ser brasileiro é uma dificuldade enorme. Sentir-se paulistano então, é uma conta ainda mais complicada.

Parece que todos nós viemos de outro lugar, mesmos os que nasceram na maternidade Santa Catarina que fica na avenida Paulista. Quanto mais pesquiso, concluo que é da natureza do paulistano incorporar outras culturas. São Paulo não existe, é um Frankestein construido de partes alheias. Um braço do interior, uma orelha do sul, a cabeça do nordeste, o pé da Itália…assim vai. Habitamos todos, este grande monstro pesado, cheio de retalhos e emendas, que se movimenta lentamente. Somos células importadas.

Importamos pianos, importamos gente. Tocamos música, contamos histórias. Parece não haver diferença.

Meus 9 anos de vida paulistana é o mesmo número da idade que tinha Regina Hwang, dona do piano deste post, quando chegou no Brasil. Ela e a família sairam de Seul, na Coréia do Sul, e vieram lançar aquela tal moeda da sorte aqui na capital paulista. Ano que vem, São Paulo comemora 50 anos de imigração Coreana, a comunidade já está preparando as festividades e isso será tema da escola de samba Unidos da Vila Maria. Não tem como misturar mais que isso!

A imigração coreana no Brasil está relacionada ao período de instabilidade que a Coréia vivia nas década de 50 e 60. A Guerra da Coréia foi travada entre 26 de junho de 1950 a 27 de julho de 1953 e dividiu a Coréia em Sul e Norte. A primeira capitalista, apoiada pelos estadunidenses, passou a chamar República da Coréia. A segunda, comunista, apoiada pela União Soviética, passou a chamar República Popular Democrática da Coréia. Hoje conhecemos as duas por Coréia do Sul e Coréia do Norte. Já nesta época pequenos grupos de imigrantes vieram para o Brasil

Uma década depois, a instabilidade política ainda existia e, em 1961, levou a um golpe de estado liderado pelo general Park Chung-hee. As grandes imigrações começaram nesta época. A data oficial é celebrada em 23 de fevereiro de 1963, mas o acervo digital do Museu da Imigração do Estado de São Paulo tem fotos incríveis de viagens de um ano antes, quando navios partiam do porto de Busan na costa da Coréia do Sul para atracar no porto de Santos.

Coreanos saindo do porto de Busan para o Brasil. (imagem: acervo digital Museu da Imigração)

Hoje os coreanos são por volta de 40 mil só em São Paulo, fazendo do Brasil o sexto país em volume de imigrações, com mais ou menos 50 mil. Dominam o setor têxtil de confecção e se concentram nos bairros do Brás e Bom Retiro. Quando vieram, se instalaram na Baixada do Glicério ,que é a região localizada às margens do rio Tamanduateí, nos distritos da Liberdade e da Sé.

Nosso piano fica no restaurante Portal da Coréia, localizado na Rua da Glória, 729 – Liberdade. É um piano alemão de armário, castanho, da marca Gustav Breyer, e tem uma história curiosíssima. Ele pertencia a uma pianista coreana que veio para o Brasil com a família em busca de uma professora de piano, que era ninguém mais ninguém menos do que a grande concertista Magda Tagliaferro, que morava no Rio de Janeiro na época. Segundo o relato de Regina, o piano foi adquirido através dela. Fiquei desesperada para saber o nome da pianista coreana, mas Regina só lembra o sobrenome, An.  O piano precisaria de uma reforma, a afinação está mediana, o som está um pouco carregado nas frequências agudas. Mas o peso da tecla está bom e o teclado está nivelado.

Cantei propositalmente a música Oriente, do Gilberto Gil, que está no antológico disco Expresso 2222, de 1972, disco que ele lançou depois que voltou do exílio em Londres. A canção fala sobre uma busca por uma outra ordem de organização, questiona o jeito de pensar do ocidente/egocentrico e propõe uma virada para os valores orientais, para uma filosofia mais integral com a natureza, para uma retomada da concentração. Como podemos ver nos versos: “pela simples razão de que tudo merece / consideração” e também em “pela simples razão de que tudo depende / de determinação”.

Regina tem o restaurante há três anos. Seu pai chegou em São Paulo em 1970 para trabalhar com confecção e dois anos depois a mãe, que também trabalhou com restaurantes, veio com ela e os dois irmãos. Eram apenas os 5 e a cidade. Idioma, comida, moda, música, clima: tudo diferente.

Os pratos mais conhecidos do restaurante são: o Bulgogi – que são fatias finas de carne com um tempero suave assadas na hora numa chapa quente; e o Dolsot Bibimbap, que é um risoto a moda coreana, cozido no prato de pedra com legumes, shimeji, champignon, carne e ovo. Agustin e eu provamos a comida depois da gravação e eles são fantásticos! É uma ótima pedida para quem gosta de comida oriental, mas está cansado daquela mesmice…Tudo é gostoso.

Além do restaurante, ela é professora de Hankook Muyong, dança tradicional da Coréia, sua verdadeira paixão. Ela e seus alunos já se apresentaram em várias cidades brasileiras. Quando perguntei se ela se considera mais coreana ou brasileira, ela respondeu coreana. Para ela, a vida dentro da comunidade foi muito necessária para conseguir se estruturar em São Paulo.  Porém, esta mesma certeza cultural não é compartilhada pelos 4 filhos dela. De outra geração, as três meninas e um rapaz, que hoje faz faculdade na Coréia do Sul, as outras duas estudaram em faculdades brasileiras, e a caçula de 10 ano ainda está no colégio, oscilam entre uma cultura e outra. Ora se sentem brasileiros, ora coreanos. Estudaram em colégios brasileiros, têm amigos brasileiros e dependeram menos dos laços comunitários coreanos.

Todos eles se sentaram ao Gustav Breyer e estudaram piano.  Escutam K-pop, música pop coreana e a nossa MPB. Estão inseridos na cultura antenada e tecnológica da metropole, filhos do mundo cosmopolita, onde fronteiras não importam muito. São Paulo e Seul não estão separadas por oceanos, mas a um clique de distância.

Acredita-se que os primeiros habitantes da Coréia chegaram lá há aproximadamente 500 mil anos, fundando a dinastia Choson.  O que é o peso desta tradição milenar em comparação com nossos minúsculos 500 anos de descobrimento? Como somos mesmo uma terra jovem! No entanto, os tempos de hoje são regidos pelo signo da transformação. Moderno high-tech e tradição milenar são consonâncias de um mesmo acorde, seja lá na Coréia ou aqui em São Paulo.

Nossa crise de identidade não terá hora para acabar. Mesmo um país com tanta história, como a Coréia do Sul, com milênios no sobrenome tem que se reinventar. Acredito que aqui não será diferente. Talvez com alguns mil anos entederemos mais quem somos e o que estamos fazendo.

Quantos pianos ainda até isso!?!?

Um beijo, até o próximo piano!

Alessa

19/08/2012

Ps: Muito obrigada a querida Natália Lago, por mais uma indicação.

Piano nº11 – Piano Plié

o piano Brasil do Estúdio de Ballet Cisne Negro.

Algumas pessoas falam que existem certas habiliades que, ou você começa desde pequeno, ou esquece, nunca mais vai conseguir tê-las. Tocar piano é uma delas. Ou você começa desde os 3 ou já era. Que horror! Fico pensando quanto tempo eu perdi ouvindo esse tipo de gente amarga. Eu tinha 21 anos quando resolvi estudar piano para valer. Não sou, nem pretendo ser nenhuma concertista, mas estou chegando devagar no meu caminho, leio partitura e cifras até complicadas, improviso ainda é uma montanha a se escalar, mas um dia eu chego lá. Se quando menina tivesse escutado mais o meu coração e menos essas pessoas chatas, talvez teria convidado o piano para sair mais cedo, mas fiquei de paquera por muito tempo. Devia ter pedido em casamento muito antes, mas… não se pode chorar pelo leite derramado.

É óbvio que estudar alguma coisa desde pequeno é muito melhor, o corpo assimila de outra forma e aquilo fica incorporado naturalmente na pessoa. Mas não existe tempo nem calendário para nossas vontades e nossos desejos, muito menos os de ordem artística. Outra habilidade sobre a qual falam essa mesma bobagem é o ballet.

O post de hoje tem um caráter muito especial para mim, é um post dançarino. Não que eu saibar dançar, muito pelo contrário, mas quando entrei na nossa locação tive uma sensação familiar. Cheguei no Estúdio de Dança Cisne Negro e me reconheci em muita coisa da escola de dança que existe há mais de 50 anos e é, talvez, a mais famosa escola de ballet do Brasil. As salas, espelhos e barras, as meninas de meia calça rosa que andam com os pés abertos, que nem pato. As professoras gritando “5…6…7…8…” e a música por todos os lados.

Na minha casa, onde cresci em Rio Claro, só se falava em ballet. Minhas duas irmãs dançavam e aquilo era a vida delas. Por consequência, acabou sendo a vida da minha mãe, que sempre nos apoiou, e de meu pai, que foi arrastado de lambuja para todos os recitais, dos meus 5 anos até hoje, e, assim, acabou gostando. Até eu entrei nessa, fiz uns aninhos, mas vi que não era para mim. Montei uma banda de rock e fui tocar Deep Purple, Jimi Hendrix e Eric Clapton. Era revoltada, rebelde sem causa, e gostava de preto, nada de rosa.

Mas de tanto respirar dança em casa, conheci muitos repertórios e histórias de bastidores das bailarinas e, sem que eu soubesse, acabei entendendo bastante do assunto, tudo por osmose. Uma irmã parou de dançar, a outra dança até hoje e fez disso sua vida, foi para Londres estudar ballet clássico e jogar a moeda da sorte dela na terra da rainha. Este post então vai para ela e para as infinitas possibilidades do que ela pode ser.

Luana Ferreira e Gustavo Lopes (foto: Débora Peroni)

Luana Ferreira e Gustavo Lopes (foto: Débora Peroni)

O Estúdio Cisne Negro fica na rua das Tabocas, na Vila Beatriz; foi fundado graças a uma eterna apaixonada pela dança chamada Hulda Bittencourt e seu marido Edmundo. Nascida em Santa Cruz do Rio Pardo, desde criança ela sonhava em ser bailarina. Até que, na década de 50, teve aulas com a bailarina russa Maria Olenewa.

A professora russa foi peça fundamental para introdução do ballet clássico no Brasil. Se mudou de Moscou para o Rio de Janeiro em 1926, onde criou a Escola de Danças Clássicas do Theatro Municipal do Rio de Janeiro. Depois de formada uma base de dançarinos lá, em 1947, ela se mudou para São Paulo e começou a criar esta cultura aqui. Em uma destas classes pioneiras, estava dona Hulda.

Dona Hulda costumava dançar em programas da TV Tupi, mas o marido não era muito fã da idéia, então montaram a escola de ballet que funcionava nos andares inferiores do prédinho que haviam construido – eles moravam nos superiores. Foi o primeiro espaço voltado exclusivamente para a dança em São Paulo, na época a região era só mato.

Em 1977, ela montou o Cisne Negro Cia de Dança que funciona independente do estúdio onde fica a escola. Para o primeiro espetáculo da companhia, em 1977, ela recrutou estudantes de educação física para o elenco masculino, pois não haviam bailarinos homens disponíveis.  A companhia tem 35 anos e é reconhecida mundialmente como um dos grandes nomes do ballet brasileiro no mundo. Na época do governo Collor, a escola passou por muitas dificuldade e quase fechou as portas, mas, escondida do marido, dona Hulda conseguiu um empréstimo no banco e o Cisne Negro pode retomar suas atividades. Dona Hulda até hoje se dedica ao ensino e divulgação desta arte em todo o Brasil e no mundo.

Dentro de uma das salas principais do Estúdio está nosso convidado, um piano de armário da marca Brasil, de madeira castanha escura. Sua afinação está um pouco prejudicada, os pedais também, necessitaria de uma boa reforma e o banquinho está perdido. Eles usam o piano para as aulas de ballet e exames da Royal Academy de Londres, que exige a presença de um pianista durante a prova. Nosso piano acústico não é mais o primo bailarino e foi substituido por um piano digital, que também fica na sala. Mas ele permanece encostado no canto, proibido de ser vendido, para que os alunos não fiquem sem música caso acabe a energia.

Dois destes alunos foram gentis de compartilhar seus respectivos talentos conosco, em nossa visita ao piano Brasil. Luana Ferreira e o Gustavo Lopes começaram a dançar muito novos, estudam no Estúdio e planejam seguir carreira no ballet. O dedicamento deles é visível em seus físicos alongados. Os dois dançando criam linhas lindas que riscam todo o espaço amplo da sala. Eu, Agustin e Débora ficamos de queixos caídos quando os dois começaram a esboçar passos em cima da música que eu tinha apresentado, e que não tinha nada a ver com o repertório que estavam acostumados a dançar. Habituados a dançar com música clássica, eu cheguei com o pop/jazz da cantora e pianista israelense Yael Naim. Fui ver o show dela recentemente e me apaixonei pela leveza de suas composições, então escolhi a musica I Try Hard, de seu terceiro álbum. No começo, os dois estavam apreensivos com o que fazer, mas logo foram se soltando e criaram uma coreografia na hora para nós. O resultado ficou lindo, nosso primeiro vídeo com participações especiais.

Agustin, eu, o piano e Luana Ferreira (foto: Débora Peroni)

Os pianos Brasil são um clássico no país, foram fabricados em São Paulo, mas possuiam a marteleira e mecânica importada. As peças do interior do instrumento vinham de fora ou dos Estados Unidos, da fábrica Elephant, ou da Alemanha, da fábrica Renner.  As partes de madeira eram colocada aqui no país. A marca ficou muito conhecida nas décadas de 50 e 60, porém encerrou suas atividades na década de 70. Atualmente, os pianos Brasil são raros e disputados a tapa pelos restauradores, pois possuem um ótimo som por um preço acessível. O meu piano é um piano Brasil, eu sou fã da marca e é o primeiro post em que eu encontro um piano deste!

Ele pertenceu a pianista Maria Inês de Vasconcellos que ganhou o instrumento novinho de seu pai, aos 8 anos de idade. Ele foi comprado na antiga e antológica loja de música Casas Manon, que atua em São Paulo há 95 anos.  Foi neste piano que Maria Inês concluiu sua formação no Instituto Musical de São Paulo. Ela se tornou pianista especializada em acompanhamento para dança por acaso. Na época, ela trabalhava tocando piano nas aulas de ginástica, muito antes das músicas eletrônicas invadirem as academias fitness. Em um belo dia, a pessoa encarregada pela música no Cisne Negro faltou e ela foi substituí-la. Nunca mais saiu, tem 33 anos de casa. Hoje, ela viaja o Brasil todo acompanhando salas de bailarinos, além de países no exterior como o Canadá.

Maria Inês Vasconcellos acompanhando exames.

Com 65 anos, ela conta que tocar piano para o ballet é completamente diferente dos recitais de pianos normais. Exige um outro tipo de sensiblidade e que o que a preparou para a tarefa foi sua perseverança. Acompanha os bailarinos tocando composições improvisadas na hora. O professor dá um andamento, ou cantarola alguma coisa e cabe a ela traduzir o que se passa na cabeça do coreógrafo em uma música. Dai então os bailarinos vão atrás da música que serve de parâmetro para organizar os passos da dança. O tempo é o martelo corretor.

Há vinte anos, gravou o seu primeiro cd de músicas para aula de ballet. A criatividade e o improviso são seus maiores materiais de trabalho, ela acredita que, sem isso, tocar para dança seria impossível. Quando perguntei o que a dança a tinha ensinado, ela falou que tocava com a alma e isso só era possível porque existia a troca. Quando existe retorno e diálogo entre as artes, seja a dela com o piano, os bailarinos e seus movimentos, o professor e seu ensinamento, é nesta ocasião em que fica fácil tocar com a alma.

E como se fosse obra do destino, Maria Inês tocou para minha irmã dançar em várias aulas e exames há muitos anos. Ela lembrava até da minha mãe sentada no banco da sala, costurando fita na sapatilha, esperando a aula acabar. Nós nunca nos vimos antes, mas o piano tocou que tocou e acabou unindo nossa conversa.

Não tem jeito, estamos todos amarrados com cordas de piano, quanto mais toco e escrevo, mais comprovo esta teoria.

Um beijo, até o próximo piano!

Alessa

23/07/2012

Video: Agustin N. Oroz

Fotos: Débora Peroni

Bailarinos: Luana Ferreira e Gustavo Lopes.

ps1: Um agradecimento especial a Luciana Vigneron do Estúdio Cisne Negro.

ps2: dica quente de nosso leitor Caio Ramos: mudaram de lugar os pianos das estações de metro o da Sé foi para o Brás e o da Tamandatueí foi para o Paraiso! Alguém tem notícias do piano da Luz?? continua aquela coisa horrível!?

(foto: Débora Peroni)